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A Doadora

A Casa Museu Guerra Junqueiro nasce da vontade expressa de Maria Isabel Guerra Junqueiro, filha do Poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro e mulher do Dr. Luís Augusto de Salles Pinto de Mesquita Carvalho, figuras notáveis do seu tempo.

 

Retrato fotográfico de Maria Isabel Guerra Junqueiro

e de Luís Augusto de Salles Pinto de Mesquita Carvalho

 

Maria Isabel Guerra Junqueiro era a mais velha das filhas do Poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro e de sua mulher Filomena Augusta da Silva Neves. Era uma pessoa lúcida e inteligente, que desafiou todas as dificuldades para que o nome de seu pai não ficasse esquecido.

 

Maria Isabel nasceu em Viana do Castelo, a 11 de novembro de 1880. Foi com o pai que Maria Isabel aprendeu as primeiras letras. Frequentou, depois, um colégio de religiosas no Porto. Educada com a sua irmã Júlia – mais nova um ano –, segundo a base da educação defendida pelo poeta em carta dirigida a Bernardo Pindela, em 1888: Não quero fazer das minhas filhas nem livre pensadoras, nem sirigaitas literárias. É exactamente para que não o sejam que eu lhes quero ensinar os rudimentos singelos e simples das maravilhosas ciências da natureza. Duas ou três dúzias de livrinhos elementares e perfeitos….

 

Em 1911, Guerra Junqueiro assumiu o cargo de Ministro Plenipotenciário de Portugal na Suíça. Por essa altura, Maria Isabel sofria de pulmões, acompanhando os pais até Lausana, onde ingressou no Sanatório de Valmont. Ao regressar a Portugal, conheceu aquele que viria a ser o seu marido: Luís Augusto de Salles Pinto de Mesquita Carvalho.

 

Luís Augusto de Salles Pinto de Mesquita Carvalho nasceu na Casa de Trás da Sé (onde, mais tarde, seria montada a Casa Museu Guerra Junqueiro), sita na Rua de Dom Hugo, n.º 32, freguesia da Sé, Porto, a 08 de Julho de 1868. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde obteve o grau de Bacharel (1890). Foi notário em Vila do Conde e Vila da Feira e advogado em Aveiro, Vila do Conde, Porto e Lisboa. Foi primeiro-oficial da Direção-Geral de Saúde do Ministério do Interior. Em 1908, publicou A Família o Casamento e, em 1910, Projecto de Lei do divórcio em Portugal, trabalhos progressistas, que marcaram o princípio do seu percurso político. Foi membro do Partido Republicano Português e, após 1912, do cessionário Partido Republicano Evolucionista, pelos quais foi Deputado da Nação, eleito pelo círculo de Santo Tirso (1911-1915). Entre 15 de março de 1916 e 25 de abril de 1917, assumiu a pasta de Ministro da Justiça do Governo da União Sagrada, que unia o Partido Democrático (liderado por Afonso Costa) ao Partido Republicano Evolucionista (liderado por António José de Almeida). Em 1918, esteve preso por motivos políticos. Já no ano seguinte, voltou a tomar assento como Deputado da Nação, desta vez eleito por Oliveira de Azeméis. Entre 21 de janeiro e 8 de março de 1920, regressou ao Ministério da Justiça, agora integrado no Governo do Partido Democrático. Em 1924, assumia o cargo de Presidente do Supremo Tribunal Administrativo. Morreu em 1931.

 

Luís Pinto de Mesquita Carvalho casou em primeiras núpcias, em Aveiro, a 21 de junho de 1893, com Dona Fernanda Catalá do Amaral Osório, filha dos 1.os Viscondes de Almeidinha, que nasceu no Paço do Terreiro, Estarreja, Aveiro, a 16 de maio de 1871; e morreu em Miragaia, Porto, 19 de fevereiro de 1925. Deste casamento nasceram dois filhos, mortos na primeira infância: Carlos Alberto e Carlos Luís. O casal divorciou-se em 1911, após a publicação da então controversa Lei do Divórcio, a 23 de fevereiro desse mesmo ano.

 

Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Augusto de Salles Pinto de Mesquita Carvalho casaram no Porto, a 23 de setembro de 1911. As testemunhas da noiva foram os seus pais; e o do noivo, o político António José de Almeida. O casal logo se mudou para Lisboa, onde manteve franca convivência com grandes vultos da política, da literatura e da arte. Inteligente, culta, senhora da sua vontade, expressando-se e escrevendo bem, Maria Isabel exerceu uma enorme influência em determinados meios sociais e políticos.

 

Durante a Grande Guerra (1914-1918), Maria Isabel entregou-se a iniciativas sociais de auxílio aos Soldados Portugueses em França e em África. Pertenceu ao núcleo fundador da Cruzada das Mulheres Portuguesas, movimento feminino criado em Lisboa em 1916, com o objetivo de mostrar à sociedade o valor moral e inteletual das mulheres portuguesas. Pertenceu ao órgão da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos das Mulheres e foi Presidente d,a Comissão de Enfermagem.

 

Poucos dias antes da morte do Poeta, em 1923, uma publicação apresentou uma fotografia de Maria Isabel, seu marido e seus pais, a qual Guerra Junqueiro ironizou: Quatro parceiros da bisca sueca posando para a imortalidade.

 

Depois da morte do pai (1923) e, sobretudo, depois da morte do marido (1931), a vida de Maria Isabel converteu-se numa roda-viva. Empenha-se em múltiplos assuntos, tendo sempre como objetivo perpetuar a memória de seu pai. Em Lisboa, lutou para que não se demolisse a casa onde Guerra Junqueiro falecera, na tentativa de a converter em casa museu, mas sem êxito. A 4 de agosto de 1934, compra a Casa de Trás da Sé, também conhecida como Casa do Dr. Domingos Barbosa. Neste imponente edifício da primeira metade do século XVIII, desde sempre propriedade da família do marido, Maria Isabel Guerra Junqueiro teve o propósito de fazer instalar as coleções de artes decorativas de seu pai. A ela passará a dedicar uma atenção muito especial.

 

Em 1938, adere ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e, no ano seguinte, é eleita 2.ª Secretária da secção de Paz. Ao mesmo tempo, cultiva uma intensa vida social, primando pelo requinte nas suas apresentações públicas. É convidada frequentemente para eventos culturais organizados pela Casa dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, pelo Círculo de Cultura Musical e pelo Teatro Experimental do Porto, tendo sido, deste último, uma das primeiras sócias.

 

A 25 de março de 1940, Maria Isabel e sua mãe, Filomena Guerra Junqueiro fizeram a doação da Casa Museu Guerra Junqueiro e de grande parte do espólio de artes decorativas do Poeta à Câmara Municipal do Porto. Reservaram, no entanto, uma quantia mensal e um apartamento na sobreloja do edifício. A Casa Museu foi inaugurada a 19 de junho de 1942, cumprindo-se o sonho partilhado com Luís Pinto de Mesquita Carvalho, de um espaço […] que guardasse as obras, as relíquias, os objectos de especial estima do escritor e pensador insigne.

 

Quem pessoalmente conheceu Maria Isabel testemunhava que tinha muitas semelhanças e pontos em comum com o seu pai: a estatura, a vivacidade, o olhar, certas expressões, atitudes e gestos. Parecia-se também psicologicamente, pela voluntariedade, energia, tensão combativa, propensão irónica e culto da verdade.

 

Aos oitenta e oito anos de idade, vivendo no Porto, deslocou-se a Lisboa para inauguração de um monumento a seu pai, da autoria do escultor Lagoa Henriques e do arquiteto Raul Lino. O seu último ato público de homenagem a Junqueiro aconteceu a 17 de setembro de 1973, com a inauguração da estátua do Poeta, no jardim da Casa Museu, da autoria do Mestre Leopoldo de Almeida.

 

Por não ter descendência, Maria Isabel Guerra Junqueiro destinou que todo o seu património fosse destinado a uma fundação particular, que se denominaria de Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Pinto de Mesquita Carvalho e que teria por missão a divulgação e o estudo da obra do poeta Guerra Junqueiro.

 

Quando eu morrer, que morra aqui. Morro no meu posto, dissera Maria Isabel; assim aconteceu a 2 de janeiro de 1974. O seu corpo ficou depositado na Casa Museu Guerra Junqueiro, aonde se deslocaram para apresentar condolências o Bispo do Porto Dom António Ferreira Gomes, o Diretor da Faculdade de Letras do Porto, Dr. António Pinto de Mesquita, e a Diretora do Museu Nacional Soares dos Reis, D. Isabel Freitas Gonçalves.

 

Repousa perto da casa onde nasceu em Viana do Castelo.


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